Indústria da Alimentação Indústria Campanha apresenta ranking socioambiental de marcas alimentícias

Dez empresas multinacionais detêm grande fatia do mercado mundial de alimentação. Apesar de seu faturamento volumoso, elas nem sempre adotam práticas socioambientais corretas. Para expor essas fragilidades, a Oxfam, organização internacional presente em mais de 90 países, criou a campanha Por Trás das Marcas.

Um raio X socioambiental da empresa

A ideia é mostrar quais são as empresas responsáveis por cada uma das principais marcas de alimentos, como elas tratam seus produtores, quais medidas de sustentabilidade adotam e que nível de transparência apresentam. Assim, o site da campanha divulga um ranking, atualizado periodicamente, que avalia cada companhia em sete categorias diferentes.

Itens avaliados

Elas são: terra, que verifica se as áreas de produção dos fornecedores estão livres de apropriações de terra; gênero, que analisa se as mulheres recebem um tratamento igualitário e justo; agricultores, que avalia o compromisso das empresas para que os agricultores familiares e de pequena escala não passem fome; trabalhadores, que considera o que as empresas dizem fazer para assegurar os direitos trabalhistas nas suas cadeias de suprimento; clima, que estima o quanto as empresas se comprometem para que sejam reduzidas as emissões de gases de efeito estufa nos produtores primários; transparência, que mede a divulgação das práticas de lobby e contribuições financeiras aos governos; e água, que mede o compromisso em diminuir o uso de água e a manutenção dos mananciais.

Os alvos da campanha são Coca-Cola, Unilever, Associated British Foods (ABF), General Mills, Kellogg’s, PepsiCo, Danone, Mars, Mondeléz e Nestlé. As empresas recebem uma nota para cada uma das categorias – que têm peso igual – e a soma dos resultados determina as posições da lista e o conceito (péssimo, muito ruim, ruim, razoável ou bom). Além da nota, o ranking exibe um texto justificando a avaliação em cada um dos itens. Os dados colhidos para a criação do ranking são informações públicas, divulgadas pelas próprias empresas.

 O objetivo é informar o consumidor

O objetivo da campanha é informar aos consumidores sobre as cadeias de fornecimento dessas grandes empresas e a sua responsabilidade em cada uma delas. “É a estratégia da Oxfam para influenciar as práticas e políticas do setor privado alimentício. São 10 empresas que monopolizam a produção de alimentos no mundo, e movimentam recursos enormes”, conta Veronica Barbosa, coordenadora de Mídia e Comunicação da Oxfam no Brasil.

Segundo ela, a Por Trás das Marcas é fruto da Campanha Cresça, que existe em 40 países. “A campanha é para que o sistema de alimentação e produção seja menos dominado pela influência do capital e pelo agronegócio, que tem seu papel, mas também tem um efeito nefasto na agricultura e segurança alimentar”, afirma.

Um exemplo de hábito que atende a essas exigências é o consumo de alimentos sazonais na sua época de colheita no Brasil. Dessa forma, evita-se que esses mesmos alimentos venham de milhares de quilômetros de distância, o que contribuiria para a emissão de carbono na atmosfera. Esse fator compõe o caráter holístico da campanha, como destaca Veronica, afinal ela trata de aspectos sociais, econômicos e ambientais.

Desde o início do projeto, as grandes empresas já foram avisadas sobre a criação do ranking. “Esperávamos que reagissem desde o início. Recebemos informações das empresas o tempo inteiro, mas achamos que não reagiram com a rapidez e energia que gostaríamos”, diz Veronica. A interlocução entre a Oxfam e as empresas é uma das três frentes de atuação para propiciar mudanças. As outras duas são a sensibilização do consumidor e a divulgação das informações pela mídia – ainda superficial, na avaliação de Veronica.

Empresas reforçam a sustentabilidade

A Coca-Cola, a Unilever, a Danone e a PepsiCo, empresas consultadas, reforçaram seu compromisso com a sustentabilidade, com a transparência das ações em seu sistema de produção e com o objetivo de melhorar sua posição em questões socioambientais avaliadas por campanhas como a Por Trás das Marcas.

“Como parte do compromisso de transparência da Coca-Cola Company na adoção de práticas sustentáveis e responsáveis, estamos trabalhando com a Oxfam para enfrentar os desafios globais de forma colaborativa”, informa a empresa em comunicado à imprensa. “Como líder global de bebidas, a Coca-Cola Company está comprometida em fornecer práticas que promovam a agricultura sustentável e apoiem o nosso compromisso para a construção de comunidades mais sustentáveis. Nosso Guia de Princípios de Agricultura Sustentável reconhece e assegura os direitos das comunidades e povos locais para garantir o acesso à terra e aos recursos naturais, e respeita os Direitos Humanos e do Trabalho”.

“Como parte de seu Plano de Sustentabilidade, a Unilever se comprometeu a obter 100% de suas matérias-primas agrícolas de fontes sustentáveis até o ano 2020″, anuncia a empresa. “Progredimos bastante nessa área – aumentando a porcentagem de matérias-primas obtidas de fontes sustentáveis de 14%, em 2010, para 24%, em 2011, e para 36%, em 2012″. A Unilever também informa que participa da Bonsucro, uma iniciativa sem fins lucrativos que busca a redução de impactos ambientais e sociais da produção de cana-de-açúcar, e que, compartilhando da visão da Oxfam sobre os direitos da posse de terras, estuda a melhor forma de implementar as Diretrizes do Comitê Mundial de Segurança Alimentar nessa área.

A PepsiCo esclarece que “possui um Código de Conduta Global para fornecedores. O documento tem como objetivo garantir que nossas operações estejam alinhadas às práticas que respeitam as relações de trabalho, saúde e segurança, gestão ambiental e integridade nos negócios. Esse código vem sendo incorporado no processo de contratação dos fornecedores e já foi traduzido para mais de 25 idiomas. Para aprimorar ainda mais o documento, a PepsiCo está lançando processos cada vez mais rigorosos para responsabilidade, comprometimento, avaliação e mitigação de riscos. (…) continuamos empenhados em trabalhar com parceiros e organizações externas, como a Oxfam”.

Já o Grupo Danone diz que “respeita a abordagem adotada pelo relatório da Oxfam, mas ressalta que emprega uma abordagem diferente, cujas prioridades são definidas de acordo com a capacidade de ter um impacto positivo e valer-se de sua experiência consolidada para o tema. Vale ressaltar que, ano após ano, as conquistas da Empresa no âmbito da sustentabilidade são reconhecidas pelas principais agências de rating do mundo, incluindo uma classificação de 97/100 do Carbon Disclosure Project, 83/100 do Dow Jones Sustainability Index (DJSI), o melhor da categoria para gestão de fornecedores”.

As condições de trabalho mais ruins estão na produção de açúcar

No Brasil, as atenções da campanha voltam-se principalmente às empresas Coca-Cola, PepsiCo e ABF (que gere a Ovomaltine, entre outras marcas). Elas são as maiores consumidoras de açúcar no mundo, enquanto o Brasil configura-se como o maior produtor. “O que acontece é que hoje as condições de trabalho mais degradantes estão associadas à produção de cana-de-açúcar. E nesse setor, há também apropriações injustas de terras”, acusa Veronica.

De acordo com o estudo de caso feito pela Oxfam, a produção de açúcar no Brasil dobrou entre 2000 e 2010, em razão do aumento do seu preço internacional e da demanda interna de etanol. Nessa mesma década, as terras ocupadas com plantações de cana em Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Mato Grosso subiram de 4,2 para aproximadamente 7,6 milhões de hectares.

Para atender a essa demanda, segundo o estudo de caso, a área para cultivo de cana-de-açúcar tem se expandido com extrema rapidez, o que acarreta efeitos como a derrubada de mata nativa e conflitos entre comunidades e empresas produtoras de commodities. Essa situação motivou a criação de um abaixo assinado destinado às três empresas, contra a apropriação injusta de terras.

Segundo o relatório O Gosto Amargo do Açúcar, produzido pela Campanha Cresça, o consumo mundial de açúcar e adoçantes mais do que dobrou entre 1961 e 2009. Até 2020, a estimativa é que a demanda cresça 25%.

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