Alimentação fora do lar Com foco em hábitos saudáveis, alimentação saborosa e sem desperdício, curso leva...

O projeto é da Escolinha Philips Walita, em parceria com o Magazine Luiza, que montou uma cozinha experimental no meio da comunidade. Direto da favela do Heliópolis, a cozinheira Thabata Neder ensina técnicas de culinária a donas-de-casa atentas, participativas, e muito dispostas a incorporarem novos hábitos alimentares em suas próprias cozinhas.

Novos hábitos alimentares

Quem ministra as aulas é a equipe do projeto Dedinho de Moça, formada por chefs de cozinha e nutricionistas. As aulas trazem informações sobre alimentação consciente, saudável e sem desperdício. A organização busca ampliar a qualidade de vida das famílias com foco em hábitos saudáveis e alimentação saborosa.

Mostarda de Dijon, melaço de agave, flores comestíveis e anis estrelado podem parecer ingredientes pouco populares, restritos a uma parcela da sociedade disposta a pagar um preço alto por um prato de qualidade.

Mas o cenário, neste caso, é outro: direto da favela do Heliópolis, a cozinheira Thabata Neder ensina técnicas de culinária a donas-de-casa atentas, participativas, e muito dispostas a incorporarem novos hábitos alimentares em suas próprias cozinhas.

Em uma tarde chuvosa, uma plateia predominantemente feminina, de cerca de 30 pessoas, aprendia informações e dicas sobre alimentação consciente, saudável e sem desperdício. O fato de a aula ser ministrada em uma comunidade desfavorecida socialmente não impediu a profissional de escolher o uso de itens mais sofisticados para o preparo das receitas. “Não importa se estou na favela ou não. Eu estou aqui para dar a vez para o aluno”, afirma.

E a adesão foi total. Uma das participantes, Samantha Baggi, 33, assistiu a aula com mais nova das três filhas, Marina, de 1 ano e 2 meses. Moradora do Heliópolis há 22 anos, disse que pretende incorporar os novos ingredientes à sua rotina. “É interessante o curso porque ensina uma alimentação completa, com um baixo custo. Eu não uso açúcar branco em casa, por exemplo, e vou começar a comprar o melaço principalmente pensando nas minhas crianças”, disse. “Quero me dispor a ter uma variedade maior de alimentos em casa”, concluiu.

Foco na qualidade de vida das famílias

O melaço a qual se refere custa cerca de R$ 17, segundo a própria professora, que mostrou a etiqueta com o preço para as alunas. O valor agregado ao produto não tem a ver diretamente com o preço, mas sim com seu valor nutricional e benefícios à saúde, quando comparado aos adoçantes ou açúcar tradicional.

Outra que ficou fã da novidade foi Adna Cristoni, da organização não-governamental AMAI (Associação dos Missionários do Alto do Ipiranga), que levou as colegas da instituição para conhecerem a aula, e replicarem na ONG. “Muitas coisas a gente acha que é requintado, mas dá para ver que é possível mudar alguns ingredientes, sem gastar muito, como o melaço de agave e o óleo de amendoim”, comemorou.

A aula faz parte do projeto Escolinha Philips Walita, em parceria com o Magazine Luiza, que montou uma cozinha experimental em sua loja virtual localizada bem no meio da comunidade. Quem ministra as aulas é a equipe do projeto Dedinho de Moça, formada por chefs de cozinha e nutricionistas, que busca ampliar a qualidade de vida das famílias com foco em hábitos saudáveis e alimentação saborosa.

 

Segundo Luiza Helena Trajano, que é presidente da rede Magazine Luiza e esteve presente na aula inaugural do curso, o projeto deve ficar durante um ano no Heliópolis e, se der certo, será ampliado para outras comunidades. “A ideia é oferecer um processo educativo, incluindo higiene, economia e saúde, além de ensinar as pessoas a diminuírem a quantidade de lixo e o aproveitamento dos alimentos”, ressaltou.

Alimentação consciente

Quando o assunto é alimentação consciente, o buraco é mais embaixo e vai além do preço – o custo benefício tem a ver não só com o valor da comida, mas também com a forma como ela vai ser integralmente aproveitada; com o sabor, primoroso, com a qualidade e com a importância que o tema toma dentro de casa.

E é por isso que Thabata abre a aula com uma das frases que define o curso: “nada de receita, tudo na técnica”. Segundo ela, mais importante do que seguir um roteiro de ingredientes, é preciso conhecer os processos para que a pessoa se aproprie definitivamente do que vai comer e servir para seus familiares.  “Uma das saídas para a fome é aprender a cozinhar”, afirma.

Segurando um caju, ela questiona: “você não pagou pela pele? Então, quando você joga a pele, são suas moedinhas indo embora. Agora, se você bate no liquidificador com água, vira suco. Se cozinhar com açúcar, vira geleia”.

Neste dia foram feitas, em uma hora, três receitas: caçarola de linguiça com milho, manteiga de amendoim e caju cozido em calda. O tema era “sazonalidade”. “Ai, que palavra difícil, né gente?”, brincou a professora, logo explicando que o conceito nada mais é do que o produto da época, “bom para a gente comprar, porque é mais gostoso e mais barato”.

Thabata conta também que o curso também segue a temática da sustentabilidade. “Priorizar o alimento local, pensar em um comércio justo, enfim, tudo o que ronda um  mundo melhor.”

Pequenos comilões

De acordo com a especialista, a maior constatação relacionada às primeiras impressões sobre o curso tem a ver com o interesse pelo que realmente é comida, “o que vem da natureza, o que vem da indústria. Não tem a ver com grau social. A maioria das pessoas ricas que eu conheço nem sabem o que estão comendo”, finaliza.

Com a conscientização promovida pelo curso, a idéia das educadoras é também ver reflexos positivos na alimentação das crianças da comunidade. A engenheira de alimentos e chef Mayra Abucham é quem está à frente do Dedinho de Moça. Focada na consultoria em alimentação infantil, participou recentemente do quadro Meu Filho não Come, do programa Bem Estar.

Sobre o curso, ela reforça que a abordagem é mais abrangente e vai desde o uso da energia até a maneira como que os pais se relacionam com os filhos na hora do almoço. “Não é a receita que faz a diferença, e sim, todo este conjunto”.

Segundo ela, mais importante do que falar sobre comida de bebê é tocar nos hábitos alimentares.  “Uma alimentação de qualidade desde a primeira infância vai fazer uma nova geração mais saudável”, conclui.

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